Entre tapas e beijos, como é de costume entre as crianças pequenas, adoram estar juntos. Alice nunca poupou sua voz ao anunciar que "O Enzu é o meu meió amigu!". Depois que entraram na escola, ela começou a anunciar que era "apaxônada pelu Enzu" e que eles se casariam. Mas, hoje, por uma discussão acerca de uma vaquinha, que para ela é a vaca de um livrinho e para ele, um travesseirinho que sempre acompanha a chupeta na hora do sono, a relação amargou e, para nossa surpresa, decidiram romper o relacionamento de quase 18 meses.
Quando fomos buscá-los na escola, Alice anunciou que "num queio mais casá com o Enzu"! Ele, por sua vez, declarou que estava "chatiadu" e que Alice tinha causado "dô di cabesha". Tentamos explicar a eles que as vezes é assim mesmo, relacionamentos acabam e mulheres tendem mesmo a causar dores de cabeça nos homens. Explicamos que poderiam continuar amigos, mesmo após decidirem não mais casar. Bicos para lá, carinhas emburradas para cá, e repetidas declarações de que "eu num queio mais casá com o Enzu" mais tarde, decidi perguntar a ela se tinha algum outro pretendente ao cargo de marido.
Num tom quase vingativo, típico de mulheres em final de relacionamentos sérios e amargados, ela anuncia: "Agoia eu vô casá com a Manu!"
Gargalhadas e gargalhadas rolaram soltas. E, então me veio a dúvida que não quer calar.
No mundo em que vivemos, por mais que nosso instinto e nossa educação careta e tradicional nos diga que temos que insistir na clássica pedagogia do "menino casa com menina", como reagir a tal declaração sem comprometer uma educação aberta e livre de preconceitos?
"Minha filha, você pode casar com quem quiser, desde que seja feliz, né?" foi a minha reação.
Ao longo do dia Alice anunciou para várias pessoas a sua intenção nupcial e recebeu muitas gargalhadas, e eu, muitos olhares sérios e inquisitivos de quem se pergunta "você não vai tolher esse tipo de comentário dela? Não vai ensinar a ela que menina casa com menino e não com outra menina"?
Mas, a verdade é que se eu fizesse isso eu estaria ensinando a ela a ser intolerante do fato de que hoje existem casais dos mais variados, desde o tradicional menino e menina, passando pelo não tão ortodoxo menina e menina, até o mais inusitado menina e mais de um menino! Acho que meu papel de mãe será melhor executado se eu simplesmente ensinar a ela que todo mundo tem que buscar sua felicidade, apesar das convenções sociais que nos rodeiam...
