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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Processo Democrático

Alice estava chateada. O amigo tinha batido nela. O motivo? "Ele estava chateado porque o Aécio perdeu... ele não sabe perder, mãe!"
Daí tive a certeza absoluta do que eu já sabia bem: criança não tem que ser envolvida em eleição, tem que entender apenas que é um processo onde escolhemos nossos líderes políticos. Criança não tem que ser envolvida em partidarismo, tem apenas que entender que todo mundo vota para escolher, pela maioria, quem será o melhor administrador do nosso governo.
Expliquei a ela que num processo eleitoral democrático, eleitores não perdem nada, sempre ganham. Ganham porque tiveram a liberdade de votar em quem queriam e ganham porque puderam participar da escolha de um candidato. Expliquei também que não se trata de uma competição entre eleitores, e sim uma escolha cuidadosa onde cada um diz quem ele acha que será mais capaz de tomar as decisões corretas para todos os cidadãos do nosso país.
"Mas o seu candidato ganhou, mãe?"
"Não, ele não foi escolhido."
"E, você não está chateada?"
"Não. Eu preferia que o outro candidato ganhasse, mas a maioria preferiu o outro. Agora eu passo a torcer e cobrar desse candidato, que cumpra o que prometeu."

Acredito que ela tenha compreendido que nessa brincadeira chamada democracia, o mais importante é participar, e depois, cobrar de quem for eleito, que faça o melhor por todos nós. Mas fiquei triste, muito triste, ao ver que pais são incapazes de perceber que crianças ainda não conseguem elaborar a vitória e a derrota política da forma correta.

domingo, 10 de agosto de 2014

Até onde vai a memória de um bebê?

Lucas desmamou com 1 ano e 10 meses. Foi um desmame "conversado", tranquilo e super bem aceito por ele. Já se vão 8 meses que isso aconteceu. De lá pra cá nunca mais falamos sobre o assunto e ele já é outra criança.
Eis que estou tirando a roupa para tomar banho com ele e sou surpreendida pelo seguinte comentário:
- Main, olha, é o xêu peitu! Posso mamá o leite?
Solto uma gargalhada sonora e explico a ele que não tem mais leite no meu peito tem muito tempo. Rapidamente ele retruca, num ar tristonho:
- Ahhh, que pena... ondi eu vô tomá meu leite?
Lógico que ri a me acabar... e ele também...

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Quando Édipo me encontra!

Lucas estava no quarto, brincando com o pai e a irmã. Eu estava no escritório, bem ao lado. Ouço Lucas saindo do quarto e dizendo: "Quelo a minha mãin, cadê a minha mãin? MÃINNNNNNNN, cadê lucê?"
Respondo que estou no escritório.
Lucas entra, esbaforido, correndo em saltinhos curtos, como sempre faz. Vem até a cadeira onde estou sentada, se joga nos meus braços com um sorriso enorme e exclama: "Eu tavu com sodadi! Ti amu!" Faz um carinho e se manda de volta pro quarto.
E eu, com um sorrisinho de quina, agradeço aos deuses da psique humana por terem criado o complexo de édipo!

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Não tem pão

Alice queria Carbonara. Fui pra cozinha e, junto com ela, o irmão e o pai, fizemos o carbonara que ela adora. Enquanto ralava o queijo, ela comeu vários pedacinhos exclamando que era um queijo delicioso (um pecorino de ovelha MARAVILHOSO mesmo). Servimos o macarrão.
Eu terminei de comer, marido idem, Alice, como de costume quando não está com fome, começa a enrolar para comer. Fala, canta, levanta, samba na cadeira. 
"Alice, coma só o quanto quiser, quando estiver satisfeita, não precisa terminar o prato, ok?"
"É que o queijo está meio azedo..." (sempre usa esse tipo de subterfúgio para parar de comer)
"Ok, Alice, não quer comer, não precisa, mas não está azedo, o queijo está ótimo. Eu e teu pai comemos o mesmo queijo e você adorou o queijo antes de estar satisfeita. Basta dizer que está satisfeita, não precisa mais comer."
"Masssss euuuuu querooooo comerrrrrr... é o queijo que está azedooooooooo."
"ok, Alice, você está satisfeita e não está mais com vontade de comer, pode botar o prato na pia."
"Vocêeeeeee naooooooo me ouveeeeee.... você nunca me entendeeeeeeee... eu QUERO comer, o queijo está azedooooo, pra mim!"
"tá bom, Alice, e, o que quer que eu faça?"
"Tira o queijoooooooooo"
"ok, Alice, não tem como tirar o queijo do macarrão, está grudado um no outro... então não precisa comer o macarrão, come uma sobremesa."
"Massssssss, mãeeeeeee... você nunca me entendeeeeeeee...."
"Alice, já entendi. Não quer mais o queijo, enjoou, mas ele está colado no macarrão, então não tem solução. A solução é comer a sua sobremesa, se quiser."
"Então quero um pãozinho com manteiga."
"Não tem pão... tem frutas, tem iogurte grego de morango."
"Não quero, quero pão."
"Não tem pão."
"Então quero iogurte grego de morango, mas quero botar mel nele."
"Alice, não vai botar mel no iogurte grego de morango porque quando fez isso da última vez não comeu porque disse que ficou azedo! E não vai jogar fora o iogurte grego de novo porque é desperdício!"
"Então quero pão!"
"Não tem pão."
Saio da cozinha porque quero tomar banho. DIgo pro marido que a Alice está na cozinha, quer comer uma coisa que não tem, e o que tem ela não quer, que ele resolva porque quero tomar banho.
Alice passa por mim, bufando, vai pra sala e fica emburrada na sala.
"O que foi Alice?"
"O tom que você usou para contar isso pro papai..."
"O que tem meu tom, Alice?"
"Você está dizendo isso pra ele só pra dizer que eu estou te contrariando e eu não estou, eu quero pão!"
"Pão não tem. Você quer pão e pão não tem! Tem iogurte e tem frutas, mas isso você não quer. O que, nessa frase está dizendo que você está me contrariando? Estou falando pro teu pai o que está acontecendo, fatos, só fatos, para ele poder te ajudar, porque eu quero tomar banho."
Vira o rosto, emburra, lágrima pelo rosto.
"Você nunca me entende!"
"Alice, eu não sei que parte da conversa eu não entendi. Deixa eu revisar: Você não quer mais macarrão com queijo, quer sem queijo, sem queijo não tem. Você que pão, pão não tem. Você não quer frutas, nem iogurte, isso tem, mas você não quer. Você não está satisfeita, quer comer ainda, mas o que tem, você não quer... onde foi que eu me perdi, Alice?"
"Você usou um tom!"
"Eu não usei tom, eu falei fatos, sem nem usar entonação... eu estava entediada, usei tom nenhum... estou começando a usar um tom agora, um tom bravo e irritado porque quero tomar banho."
"Você não me ouve!"
"Então, tá, fala!"
"O queijo está azedo, quero macarrão sem o queijo ou quero pão."
"Ok, não tem como tirar o macarrão do queijo ou o queijo do macarrão. E pão não tem. O que eu devo fazer?"
"Me ouvir..."
"Alice, cansei, come o que você quiser, como quiser, com o que quiser em cima... estou indo pro meu banho... decide lá com o teu pai."
Saio e vou tomar banho, pronta para cortar os pulsos com faca de manteiga porque passei 20 minutos nessa discussão insana.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Ainda sobre fadas...

Hoje, no clube, Alice e o irmão ficaram observando os sprinklers molhando a grama. Formavam lindos arco-iris pertinho de nós. Eu, prontamente, apontei para os jardineiros e falei: "Olha, eles devem ser fadas, eles sabem fabricar arco-íris!"
Alice, num tom absolutamente blasé, me responde que arco-íris não são feitos por fadas, que eles são apenas gotinhas de água que se espalham e fazem o sol colorir o ar (coisas de guria viciada em Beakman's World).
Mais tarde, de noite, conversando com o pai e mostrando as fotos que tiramos dos arco-iris do clube, eu digo que deve ser legal fabricar arco-íris, porque, assim, podemos ir até o final deles facilmente, e ficar ricos pegando potes de ouro. Ela, rindo, me diz que isso é apenas um mito.
"Mas, filha, e as fadas, afinal, são mitos ou existem de verdade?"
"Mitos, né, mãe!"
A exclamação veio seguida de um grito de surpresa, uma mão levada à boca, como quem tenta engolir de volta o que disse, e um comentário cheio de riso, olhando para cima, como quem fala com alguma coisa no ar:
"Quer dizer, tem uma que existe sim, a do dente... ela existe, ela existe..." e, num tom mais baixo, olhando para mim, com uma das caras mais malandras que já vi na minha vida, ela continuou "Droga, será que agora ela não vai mais me trazer o meu dinheiro?"

E, assim, senhoras e senhores, descubro que Alice não acredita em fada de dente nenhuma, quer apenas capitalizar sobre seus lindos dentinhos de leite!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Sobre a Festa das Mães, dos Pais e da Família

Essa semana a discussão em voga é a questão da Festas das Mães na escola. De um lado esbravejam as mães que acham que não tem que ter porque é um desrespeito com crianças que não vivem em famílias ditas tradicionais, do outro as mães que se lamuriam porque querem ser homenageadas, e no meio disso tudo, as crianças sem saber o que fazer!
Eu acho que não dá pra ser radical pra nenhum dos lados... e acho que, mesmo quando discordamos, dá pra usar a coisa como um momento de aprendizado.

Eu, pessoalmente, não me importo se chamarem de Festa do Mico Leão Dourado... mas curto que, em algum momento (ou mais de um), meus filhos tenham a oportunidade de fazer presentinhos para as pessoas que amam, eles CURTEM fazer isso e ainda aprendem que o valor de um presente não está no preço e sim na intenção! Curto também que eles possam se apresentar para os pais uma ou outra vez, isso trabalha a timidez, a capacidade de se expor em público, e também mostra aos pais o que eles andam fazendo! Os ensaios servem como aula de música e expressão corporal, coisas muito importantes! E, principalmente, eles AMAM mostrar que sabem se apresentar!
Uma escola pode aproveitar esse momento para trabalhar a questão da maternidade como sendo mais do que gerar um filho... podem ensinar que mãe é bem mais do que a mulher que "embarrigou", é a pessoa, de qualquer gênero, que materna, ou seja, que cuida e dá amor e educação. Pode ensinar para as crianças que, sim, existem pessoas que não têm mais mães presentes aqui, e que a morte existe, o abandono existe, mas que sempre haverá alguém que preencherá a função materna, mesmo que seja um pai, uma avó, uma mardinha, um amigo da família! A mesma coisa no dia dos pais.
Eu já presenciei uma criança filha de mãe solteira, numa festa do dia dos pais, toda orgulhosa, explicando para os amiguinhos que a mãe dela era mãe E pai, era Pãe! Lógico que isso foi fruto de um trabalho feito pela escola e pela mãe da criança em harmonia, planejado e arquitetado!
O problema maior que eu vejo nesses tabus sobre ter ou não ter a festa das mães não é o fato da festa em si, mas a dificuldade que nós, adultos, temos para tomar algumas oportunidades em nosso favor. Essa criança que tem 2 pais, 2 mães, uma pãe, um mai, etc, ao sair da escola, e entrar no mundo (e não falo depois de se formar não, estou falando ao meio dia ou as 17h, quando vai pra casa), vai ter que encarar um mundo com essa realidade e, porque não usar o ambiente protegido da escola para ensinar que isso é NORMAL, que todas as configurações de família são NORMAIS e dar a essa criança as armas para chegar no mundo real e falar, com propriedade, os motivos pelos quais a configuração "alternativa" de família dela, não deixa de ser pura e simplesmente, uma família.
Eu não me incomodo que deixem de ter a festa das mães ou dos pais não, também não faço questão que tenham esse nome... mas faço questão que os adultos não criem tabus em nome de "proteger" as crianças... eu quero, sim, que meus filhos entendam, e bem, que nem sempre a família é aquele anúncio de margarina com mamãe, papai, 2 filhos e um cachorro. Quero que entendam e, aceitem como absolutamente normais, todas as configurações possíveis de família! Não quero que cresçam achando que é 'RUIM' ter 2 pais ou 2 mães ou seja lá o que for... e, sinceramente, acho que o radicalismo de eliminar essas festividades na escola está mandando a mensagem errada para as crianças, está dizendo para elas que é melhor não falar sobre esse assunto porque ele incomoda muita gente! 
Prefiro uma escola que tenha a festa das mães e dos pais e discuta, amplamente, a questão da família atual, do que uma escola que tampa o sol com a peneira e não toca no assunto porque tem criança ali que não vive no comercial de margarina!
Infelizmente tem muita escola que simplesmente aboliu a festa e não toca no assunto porque acha que é "apenas uma festa comercial", ou pior, que mudou o nome da "festa" para Festa da Família e faz uma coisa absolutamente sem foco nenhum, onde as crianças chegam na escola com os pais e ficam perambulando jogando joguinhos ou coisa similar, e, no final das contas ninguém faz nada e a "festa" foi só para constar no calendário e agradar a gregos e troianos.
Poucas são as escolas que se aproveitam desse momento para discutir as novas realidades! O que tenho visto são escolas morrendo de medo de ferir egos e escolas pisando em ovos nesses momentos... acho triste, muito triste... 
Eu vejo a coisa como um desfavor para as futuras gerações, porque a data comercial não será apagada, a noção da família margarina está aí, presente, ela não vai desaparecer, A NÃO SER QUE A COISA SEJA FALADA! E não está sendo... 
A questão familiar é um grande tabu no nosso país... virou assunto interno para as famílias ensinarem como quiserem... a escola está tirando o corpo fora.
A onda de fazer a "Festa da Família" só funciona mesmo se explicarem PORQUE é da família e não é mais FESTA DAS MÃES...
Eu acho que essa fúria contra a festa das mães na escola pode virar um grande tiro no pé!


PS em 2015 - ser mãe é cuspir para cima, pensar e repensar... mudei de idéia sobre muita coisa que escrevi nessa postagem e, hoje, acho que não tem mesmo que ter dia das mães/pais... MAS ainda acho que, na época em que essas datas são muito faladas na mídia e no comércio, é FUNDAMENTAL que a escola aproveite o gancho para falar sobre as novas configurações de família!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Os dias da semana

Alice já entendeu que a semana tem 5 dias com escola, 2 de final de semana (que ela ainda cisma em chamar de feriado, ou férias, mas, tudo bem). Alice já entendeu que o mês tem algumas semanas. Alice já entendeu que o mês tem vários meses.
Dito isso, Alice já entendeu mas ainda não conseguiu colocar tudo isso numa ordem lógica. Para ajudá-la, coloquei um calendário no quarto dela. É um calendário que ela própria monta todo mês, colocando os dias nos quadradinhos das semanas.
Ontem ela conversava comigo sobre o que levaria na sexta-feira, dia do brinquedo, para a escola. Queria saber quantos dias faltavam para a sexta-feira e foi direto para o seu calendário, para contar. Só que o calendário dela só contabiliza o mês e não entra no mês seguinte e, sexta-feita, dessa vez, é o segundo dia do mês que vem.
Alice, então, olha o calendário e, com o dedinho, começa a contar os dias. De repente, para, me olha, e, num tom entre o assustado e chateado, me diz:
- Mãe, como assim? Não tem mais sexta-feira? Não vou mais poder levar brinquedo pra escola?